O pior de envelhecer

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Nascemos, crescemos, somos criados e educados para enfrentar a vida neste planeta Terra em que fomos “colocados”. Vamos aprendendo a gerir sentimentos, emoções, situações, mas ninguém nos prepara nem nunca nos vai preparar para gerir a morte.
Dizem que quem acaba o ano mal começa o outro muito melhor e vice-versa. Espero que seja mesmo verdade. 2018 não começou da melhor maneira para estes lados. Foram quatro as mortes que tive de enfrentar em apenas onze dias. Quatro notícias, quatro velórios, quatro funerais. Três dessas pessoas, foi a morte que as veio buscar; a outra estava tão desesperada que decidiu que não havia mais nada a fazer a não ser ir ao seu encontro.
Esta última foi a mais difícil de gerir. Sem tecer grandes considerações sobre o suicídio, não deixa de ser para mim um dos actos mais egoístas à face da terra. Como é possível achar que a nossa vida não vale nada, quando coisas tão simples como ver o sol nascer não deixam de ser dádivas absolutamente preciosas?
Nos primeiros quinze dias do ano fui a quatro funerais e apesar de as idades, da minha proximidade e das causas serem diferentes, o meu sentimento foi sempre o mesmo: impotência.
Talvez por já ter passado por isso, sei perfeitamente que nada, mas mesmo nada que faça ou diga nessas situações vai mudar seja o que for. A minha presença não vai mudar nada, as minhas condolências não vão mudar nada, qualquer coisa que diga não vai mudar absolutamente nada. E é esse sentimento que me “destrói” por dentro a cada velório, a cada funeral que vou desde o dia 25 de Setembro de 2010, o facto de saber que, por mais preparados que pensemos estar para uma morte certa de um ente querido, a verdade é que nunca vamos estar preparados. Tentamos minimizar a dor de perder um ente querido (mais velho) com expressões como: “Ao menos viveu uma vida feliz e longa”. É verdade, sim, quem me dera a mim que a minha mãe morresse aos 89 e não aos 49, mas emocionalmente não deixa de ser um choque colossal o facto de termos alguém ao nosso lado um dia, e no outro já não.
Temos de aprender a viver de lembranças e memórias. Ver vídeos e fotografias até à exaustão ou escondê-los no sótão para sempre (dependendo do tipo de luto que se faz). Aprender a sorrir quando só queremos chorar e regressar às rotinas quando só queremos parar. Principalmente, temos de aprender a gerir a maldita saudade.
E é nisto que tenho andado a pensar nestes dias. Como é que se pode querer dizer que vai ficar tudo bem quando, na verdade, nada vai ser como dantes, quando aquela ausência vai fazer-se presença? A vida tende a curar, é um facto, mas aquele vazio está lá e lá vai continuar… Sempre.
Nós é que temos de aprender a geri-lo. Cada um à sua maneira, no seu tempo, ao seu próprio ritmo.
Sabem o que vos digo? O pior de envelhecer não são os cabelos brancos, as rugas e a gravidade, o pior de envelhecer é mesmo ter a percepção que o hoje é o único dia garantido que temos e que o hoje não chega para todas as metas que estipulámos ao longo da vida. O pior de envelhecer é ter a percepção que amanhã o nosso amigo/colega/familiar pode já cá não estar e que talvez tenhamos deixado para amanhã aquele café com esse mesmo amigo/colega/familiar. O pior de envelhecer é sermos chamados cada vez mais a funerais, é lidar com o sofrimento das pessoas que nos são queridas, é lidar com o sentimento de impotência que a morte nos traz… Isso sim, é o pior de envelhecer.

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5 Comment

  1. A minha avó paterna morreu tinha eu os meus 11 anos. Eu quase nunca falava com ela ou estava com ela, mas doeu demais. E eu fazendo parte de uma banda filarmónica onde várias vezes tocamos nos funerais, não estava de facto, preparada para aquela partida. A minha avó morreu com 76 anos. Era nova. E morreu devido a uma bactéria que apanhou no hospital. Demorou 2 anos, relativamente, a que me “habitua-se” a não tê-la mais. E quando me lembro da sua voz, do seu estado, sinto-me impotente também. A verdade é que há medida que vamos crescendo não vamos lidando melhor com essa dor. Eu pensava que sim, mas não. Nunca estaremos prontos nem “maduros” o suficiente para aguentar. Eu não consigo ir a funerais. Se vou, mesmo que não conheça a pessoa, choro imenso porque me lembro do funeral da minha avó. Ir a 4 funerais não deve ter sido nada fácil. E quanto ao suicídio, nunca estamos preparados para que alguém se mate. Eu própria tentei 4 vezes o suicídio. Só quem passa sabe o que pensa e o que lhe vai na alma. Hoje, sei que não é a solução. E sim, quando olho para o céu, cada pôr do sol, vejo que tenho de aproveitar cada momento cá. O hoje importa pois amanhã podemos já não cá estar. (Desculpa o testamento) beijinhos

    1. Claudia Oliveira says: Reply

      Olá Carolina 🙂 Antes de mais muito obrigada pelo teu comentário e partilha tão pessoal.
      Também acontece-me o mesmo sempre que vou a funerais, é um sufoco. O suicídio é algo que me faz imensa confusão, e lamento mesmo saber que já tenhas pensado nisso. Não quero imaginar o estado em que uma pessoa está para pensar que essa é a única solução mas, o importante é que no teu caso é passado, não é verdade?

      Goza cada minuto da tua vida, é uma dávida! Nunca te esqueças disso!

      Um grande grande beijinho para ti
      Claudia

      1. Quem pensa e tenta fazer ou faz, está mesmo no limite e não tem nada para se agarrar. O meu caso felizmente é passado graças ao meu noivo que apareceu na hora certa.

        Sei bem disso! Muito obrigada querida. Beijinhos

        1. Claudia Oliveira says: Reply

          Cuida bem desse noivo 🙂 Um beijinho! <3

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