1.825 dias sem ti!

Vou-vos contar uma história! Não sou muito boa a contar histórias, mas esta é tão bonita, que merece ser partilhada. Vamos lá ver como a coisa corre!

 

Corria o início dos anos 60, era gloriosa dos Beatles, dos Kennedy e do rock and roll…lá nas Américas e no resto do mundo. No resto desse mundo nasceu uma menina, não há registo das horas nem do local exacto, só o nome, F.

F cresceu uma menina rechonchuda, calma, gostava de costurar e comer pastéis, inteligente, com um coração de ouro, amiga dos seus amigos, muitas vezes ficava de castigo na escola por ajudar os colegas à socapa.

Os anos passaram e F tornou-se uma adolescente com uma grande vontade de conhecer e mudar e, num acto de rebeldia, contra tudo e contra todos resolveu sair de casa e conhecer o mundo. Tinha ela na altura 17 anos.

Num dos regressos a casa, F, acompanhada por um grupo de amigas, fez escala no aeroporto de Lisboa. Na sala de embarque apareceu um moçoilo bem apresentado, cintura fina, pernas longas, camisinha slim fit e aberta até ao peito, calças à boca de sino, e um grande afro (imaginem um dançarino disco dos anos 80, já tá? É essa a imagem que me passaram ao contarem-me esta história).

Este moçoilo começou a arrastar a asa para os lados de F, mas ela não estava para aí virada e, mesmo tendo apanhado o mesmo avião, cada um seguiu a sua vida.

Acaso do destino, um dia F e P (o tal disco boy), encontraram-se na rua e a partir daí nunca mais se largaram e começou uma linda história de amor…Corria o início dos anos 80.

Os anos passaram, o amor foi aumentando e o primeiro fruto nasceu (3.900 kgs de fofura de primeira qualidade). Depois…tantas outras mudanças, de país, de casa, de trabalho, de vida, de língua, de cultura, mais uma criança(2.900 kgs de fofura também de primeira qualidade)…enfim uma vida de lutas e batalhas travadas, tudo para manter uma família feliz.

 

Até que um dia, em meados de 2010, F teve que travar a maior e pior das batalhas, e infelizmente perdeu.

F apesar de tudo era uma lutadora, e F era a minha mãe

 

Hoje fazem 5 anos que não posso tocar-te, olhar-te, sentir-te, falar contigo e confidenciar-te os meus sonhos e aspirações. Hoje fazem exactamente 5 anos e 10 dias que saíste lá de casa, pelo próprio pé, enquanto a ambulância te esperava lá em baixo. Lembro-me que ao sair de casa disseste: ” Espero voltar!” E essas foram as últimas palavras que te ouvi dizer.

Lembro-me de cada segundo desses 10 dias, lembro-me desde do momento em que liguei para o 112 naquela fatídica madrugada, lembro-me da mudança de voz da operadora quando lhe falei da tua condição, lembro-me das enfermeiras que cuidaram de ti, lembro-me das pessoas que te foram visitar e daquelas que já no fim foram com o intuito de se despedirem. Lembro-me da chamada que recebi às 15 horas, uma chamada “muda”, P não conseguia falar, mas não precisava, eu já sabia o que tinha acontecido, tinhas partido, ido para um mundo melhor (segundo o que dizem).

 

De uma coisa tenho a certeza, deixaste de sofrer, ao menos isso. Não merecias sofrer daquela maneira, ninguém merece, e nós também não merecíamos, não merecíamos viver aquele horror contigo, não merecíamos assistir ao teu sofrimento impotentes, de “mãos atadas”, sem fazer nada palpável para atenuar a tua dor, e também não merecíamos ter que aprender a viver com a tua ausência, não não merecíamos, pelo menos não tão cedo.

 

Confesso, não vou muito visitar-te à tua última morada, e sabes porquê?

Porque não quero, não quero enfrentar a realidade, para mim foste fazer uma viagem, uma longa e maravilhosa viagem e um dia vais voltar para o pé de nós e contar-nos todas as tuas aventuras durante a tua ausência.

Já passei por todas as 5 fases de luto, mas são fases que viverão para sempre comigo.

 

Às vezes acredito que tu sabias que a tua passagem por aqui seria curta e, desta curta mas plena vida guardo o teu maior ensinamento:”Vive a vida hoje, faz o que tiveres a fazer hoje, gasta o dinheiro que tiveres que gastar hoje, diz o que tiveres a dizer hoje porque o amanhã é sempre uma incógnita”.

 

Saudades mais que eternas.

Até um dia!

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Love 

C.

 

 

2 Replies to “1.825 dias sem ti!”

  1. Cláudia, ler este texto deixou-me com um aperto no estômago (e no coração). Não sei o que é viver sem mãe, mas já senti o medo de que isso aconteça (a minha mãe teve cancro da mama), e admiro esta tua força, e coragem, ao falares sobre isto. Obrigada por este texto, mesmo! 🙂 beijinhos e um abraço apertado*

  2. Obrigada Catarina, de coração!
    Admito que não foi fácil escrever este texto mas a verdade é que através da escrita acabei por conseguir “dizer” aquilo que andava guardado há muito tempo no meu coração.
    Beijinho***

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