No embalo da noite

E é sempre no embalo da noite que penso em ti. É aqui, sentada no sofá que tanto adoro, com as pernas cruzadas à índio que passo para o computador o que fui escrevendo no caderno. É aqui que vou organizando as memórias e pensamentos que vou tendo durante o dia. Vou-me lembrando das nossas conversas, das nossas partilhas de sonhos e frustrações, das discussões, umas mais saudáveis do que outras, e vou intercalando as memórias menos boas com uma lágrima tímida e as muitas memórias boas com um sorriso fugaz.

São nove anos, mãe. Nove. E eu nem sei como chegámos aqui. Chegámos a este número que partilhamos…o 23. O dia em que me trouxeste a este mundo e o dia em que me deixaste nele.
O dia que transformou todos ao teu redor. O dia em que levaste contigo um bocadinho de nós, da nossa essência, da nossa felicidade. O dia em que uma família normal, como tantas outras, teve que reaprender a viver.
Passaram-se nove anos mãe, nove anos de ausências, nove anos a aprender a viver com a tua ausência e se por um lado a dor se vai atenuando com o passar do tempo, por outro a fúria por não estares connosco vai aumentando.

É tramado mãe! É tramado explicar à Matilde que ela tem outra avó, que nunca irá conhecer pessoalmente, e que essa avó é a senhora que segura a bebé na fotografia que está colocada na secretária da mamã e que é também a maior estrela que brilha no céu. É tramado relembrar que nunca mais iremos ver o teu sorriso, sentir o teu abraço e carinho. É tramado não estares aqui para aplaudir as nossas conquistas e “amparares” as nossas quedas.
É tramado gerir a dor, a frustração e a revolta de não te ter por perto com as memórias boas que quero guardar. As memórias de ti viva, feliz, despreocupada, sem saber (ou talvez no fundo até soubesses) que a tua passagem por aqui seria curta.

E é ao tentar gerir essas emoções que aqui, no embalo da noite, nos relembro. A nós e à maior parte das nossas noites. Tu a dançares ao som de uma qualquer música ritmada enquanto passavas a ferro, eu a fazer os trabalhos de casa na mesa da cozinha e a Mi a fazer algum disparate enquanto fingia que era vendedora na despensa.

Seguíamos a vida ao ritmo da tua música, mãe, e era só isso que interessava.

Nove anos de saudades infinitas!

Love
C

One Reply to “No embalo da noite”

  1. Minha querida, não há palavras, apenas envio um abraço apertado.
    O meu pai está a fazer quimioterapia… e tem uma doença na medula incurável, a única cura seria o transplante que aos 78 anos já ninguém faz!
    A doença dele mudou-me, aquilo que as pessoas quando sabem que vão morrer dizem: “não deixes nada por fazer, nada por dizer” é o que eu tento fazer.
    Estou com aquele em todas as consultas, faço por estar com ele nos dias normais, faço por ir lá com os netos… para eles um dia mais tarde se lembrarem e para ele os apreciar.
    Mas tenho medo do que virá a seguir, tenho medo da ausência e tenho medo por aqueles que cá ficarão…

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