Vedi Napoli e poi muori*

roteiro-napoles

Eu tenho uma sorte do caraças. Nasci, cresci e vivi a olhar para o Vesuvio, a passear pelo Lungomare Caracciolo, a tomar banho em água quente (do mar, entenda-se!), a passar férias em Ischia, Capri, Gaeta, Ponza ou Sorrento, a acordar com as conversas dos vizinhos de varanda para varanda, a ouvir as buzinas das vespas, a ver as manobras (loucas) de trânsito, a acreditar que a vida é para ser vivida com calma, “la dolce vita”. Esta é a essência de Nápoles, esta é a essência do Sul da Itália, e tenho a tremenda sorte de poder chamar este pequeno paraíso de lar.
Esta foi das viagens com mais carga emocional de toda a minha vida. Já regressei várias vezes a Nápoles, depois de ter saído de lá há 23 anos :O. Fui visitar a família que ainda lá está, comemorar passagens de ano, natais, férias de verão e fui lá durante vários fins-de-semana, quando estive em Milão em trabalho.
Mas, desta vez, era diferente. Fui pela primeira vez com a família que criei e queria muito, mas mesmo muito, que o maridão percebesse o porquê da minha ligação indestrutível a esta cidade, do meu amor quase inexplicável à terceira cidade mais populosa de Itália (cerca de 2 milhões de habitantes) que grande parte das vezes é associada a..lixo, máfia (a famosa Camorra) e sujidade.
Nápoles é a porta de entrada para o Sul da Itália, os napolitanos (e todos os habitantes do Sul) têm uma maneira muito diferente de encarar a vida. A família e a dolce vita vêm sempre em primeiro lugar. Gostam de dar prioridade às coisas boas da vida, o que cria alguma “irritação” aos habitantes do Norte, pois estes focam-se mais no trabalho e na produtividade.
Em Itália, há uma clara e conhecida discriminação perante os habitantes do Sul, são chamados de “terroni” que é uma maneira pouco bonita de chamá-los campónios. Isto porquê?
Porque o Sul parou no tempo, é (quase) tudo igual desde os anos 70, não há edifícios modernos, centros comerciais, grandes empreendimentos, viajar de comboio regional pelo sul da Itália é por si só uma experiência digamos que diferente.
E é por isso que não há meio termo: ou se ama ou se odeia. Posso dizer que Nápoles é uma cidade para quem gosta de coisas simples, para quem vê sempre o copo meio cheio, para quem tem um grande poder de adaptação. E eu sou tão o espelho disso, não há um italiano que tenha conhecido aqui em Lisboa que não perceba logo que sou de Nápoles, não pelo sotaque, não pelo napoletano, mas pela maneira de encarar a vida.
Hoje, finalmente, partilho convosco o post que mais me foi pedido desde o começo deste cantinho digital. Um claro, breve, mas bem estruturado guia sobre a minha cidade natal.

Como chegar?
Nápoles só tem um aeroporto (Capodichino). Com a maioria das companhias aéreas, é preciso fazer escala (por exemplo em Roma), a única que tem voos directos a partir de Lisboa é a Ryanair.
Caso façam escala em Roma, existem 3 opções para chegar a Nápoles de transportes públicos:
– Voo doméstico, a ligação mais rápida, o voo dura cerca de 50 minutos, ou seja, demoram mais tempo a embarcar do que a chegar ao destino.
– Comboio. Uma aventura que pode sair bem cara. Passo a explicar. Do aeroporto de Fiumicino têm obrigatoriamente de apanhar o Leonardo Express, comboio que demora cerca de 30 minutos a chegar à estação central de Roma (Termini). De lá, há 3 tipos de comboio que podem apanhar para Nápoles: o regional, que demora cerca de 3 horas; o intercidades, que demora cerca de duas horas; ou o Freccia Rossa, que demora uma hora. Este é o mais rápido e o mais caro, o preço pode chegar aos 50 euros por pessoa. Podem comparar preços e ver os horários no site da Trenitalia.
– Autocarro, a opção mais barata. O autocarro (Fiumicino Express) sai de Fiumicino, pára no aeroporto de Ciampino (outro aeroporto em Roma) e vai directo até à estação central de Nápoles. O autocarro tem WC e Wi-fi a bordo e demora cerca de 3 horas. O bilhete custa 24.99 euros se comprado até ao dia anterior à viagem ou 19.99 euros se comprado com mais de 24 horas de antecedência. O preço é por pessoa e os bilhetes podem ser comprados a bordo ou online.

Onde ficar?
Esta é a pergunta essencial para uma boa estadia em Nápoles. Como qualquer outra cidade, não é tudo um mar de rosas e, infelizmente, a primeira impressão (se chegarem de comboio) é péssima. A zona da estação central é de fugir, está quase tudo degradado, sujo, e não é muito bem frequentado, pelo que não aconselho hotéis nessa zona (apesar de serem substancialmente mais baratos, e agora já sabem porquê).
As melhores zonas para se alojarem são:
Chiaia
– Plebiscito
– Lungomare Caracciolo
– Vomero
– Posillipo
– Mergellina

O que comer?
Mozzarella. Em lado nenhum, mas mesmo em lado nenhum, comem uma verdadeira mozzarella di bufala a não ser aqui. Nem em Milão, nem em Roma, quanto mais em Portugal! A rainha dos queijos deve ser comida aqui e só aqui. Uma das primeiras coisas que faço sempre que vou a Napóles é ir comprar uma mozzarella numa salumeria. Nhamy!
– Pizza. Ora bem, dizem que Nápoles é a cidade da pizza, não é verdade? E a verdade é que por 3 euros comem uma pizza Margherita tamanho familiar. Uma pizza não custa mais de 7 euros, mais do que isso já é considerado preço para turista.
– Peixe e marisco, com especial atenção para as amêijoas (vongole) e para os mexilhões (cozze).
O’ Cuoppo. Um cone de cartão com uma mistura de fritos em miniatura. É feito no momento e pode-se escolher entre carne, peixe ou…doces. É o símbolo do street food e geralmente come-se com 2 pauzinhos.
Sfogliatella. Ai a sfogliatella! Existe a folhada (riccia) e a género biscoito (frolla). Doce com recheio de requeijão (ricotta). Eu prefiro a folhada e esta é só mais uma das coisas que têm mesmo de experimentar.
Babá. Parecido com o papo de anjo, segundo o excelentíssimo meu marido (nunca comi), em poucas palavras é um pão-de-ló (pan di Spagna) em forma de cogumelo embebido em rum ou limoncello.
Pastiera Napoletana. Típica tarte feita no período da Páscoa, mas que já se pode encontrar praticamente o ano todo. Com recheio de requeijão (ricotta) e água de flor de laranjeira. 90% dos doces napolitanos levam recheio de requeijão (ricotta).

O que visitar?
Piazza Plebiscito
Centro Storico
Napoli Sotterranea
Galleria Umberto I
Maschio Angioino
Spaccanapoli
Posillipo
Vomero
Castel dell’Ovo
Palazzo Reale
Reggio di Caserta
Villa Pignatelli

Transportes
Metro. A maneira mais prática de se deslocarem pela cidade. Dizem que a estação de metro “Toledo” é uma das mais bonitas da Europa…não achei nada de especial. Aliás, senti-me mesmo enganada com tamanha publicidade.
Bus. O trânsito em Nápoles é caótico. E as manobras dos condutores assustam. Muito. Só para terem uma noção, vi um senhor a fazer uma rotunda no sentido inverso e, perante o meu espanto, o meu primo comentou calmamente que era normal.
– Táxi. É sempre melhor perguntar logo o valor aproximado a pagar para ir a determinado local. Para locais turísticos, costumam ter um preço fixo que pode ser consultado dentro do táxi. Não há serviço da Uber.

Curiosidades
– O nome Nápoles vem da palavra grega  “Neapolis” que quer dizer cidade nova (o que é engraçado, visto que de novo não tem nada) para assim ser distinguida de Partenope “Paleopolis” que era a cidade velha.
– O centro histórico de Nápoles é o maior da Europa: são cerca de 1700 hectares e foi nomeado pela UNESCO como património mundial. Ao todo, há 448 igrejas em Nápoles.
– A pizza Margherita deve o seu nome em homenagem à visita a Nápoles da rainha Margarida, em 1889. A pizza tem as 3 cores da bandeira italiana. O tomate para o vermelho, o branco para o queijo e o manjericão para o verde.
Spaccanapoli, que quer literalmente dizer “parte Nápoles” tem como principal característica o facto de dividir Nápoles de Norte a Sul numa linha recta perfeita. Esta mesma linha pode ser vista do miradouro do Castello Sant’Elmo ou da Certosa di San Martino situado no Vomero. O mais interessante é que esta linha recta não é formada por uma estrada só, mas por 7.
– A máscara local é a da famosa Pulcinella. Representa a genialidade, destreza e esperteza dos napolitanos.
O Gran Caffé Gambrinus situado perto da Piazza Plebiscito é o mais importante café\pastelaria de Nápoles. Foi inaugurado em 1890 e já foi ponto de encontro de reis, políticos, jornalistas, poetas e artistas.
– De Posillipo podem ver a famosa ilha da “Gaiola”. Basicamente, são duas rochas ligadas por uma ponte curvada. Dizem que a ilha está amaldiçoada porque todos os proprietários tiveram mortes precoces e suspeitas. A ilha agora é propriedade do estado.
– A Camorra é o nome da organização criminosa de Nápoles. É uma das maiores e mais antigas organizações da máfia em Itália. Grande parte do comércio local paga o pizzo. Uma forma de extorsão (em dinheiro) feita pela máfia para poderem continuar a exercer determinada actividade. Se quiserem saber mais sobre este mundo, aconselho o livro Gomorra de Roberto Saviano e\ou a série com o mesmo nome (que foi baseada no livro).
– Estiveram em Nápoles há pouco tempo e sentem uma saudade desmedida da cidade? Não se preocupem, é só uma fase, fase essa que se chama Napolitudine, não estou a brincar!

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(Esta fotografia têm uma qualidade horrível mas eu gosto muito dela, foi tirada no dia do meu aniversário na zona onde nasci 🙂 Certosa di San Martino-Vomero, Abril 2018)

Love
C

*Frase célebre dita por Johann Volfang Van Goethe (escritor alemão) em 1787. Após a sua visita a esta cidade, afirmou que nada se compara à beleza de Nápoles, pelo que podes morrer depois de a visitar!

6 Replies to “Vedi Napoli e poi muori*”

  1. Olá, Cláudia,
    Adorei o post e foi mesmo isso que senti nas pessoas, uma diferença grande relativamente a Roma, por exemplo. Tudo sorridente, tranquilo, e só falta mesmo convidarem-nos para almoçar quando passamos em frente às casas. 🙂 Curiosamente num dos pequenos-almoços sobre a baía (ficámos no Hotel San Francesco Al Monte e adorei), perguntei isso mesmo: deve ser incrível crescer aqui, viver assim desde miúdo, ver esta beleza toda, esta comida, esta forma de estar na vida dia sim, dia sim! 🙂 Fico imensamente feliz por si! 🙂 PS: adorei descobrir este cantinho, parabéns!

    1. Claudia Oliveira says: Responder

      Olá Paula boa noite 🙂
      O seu comentário deixa-me mesmo muito feliz! Normalmente os comentários que oiço são sempre dois: que Nápoles é suja e perigosa. Tão bom saber que percebeu a essência que paira na cidade. E tão bom saber também que gostou deste meu cantinho. Espero “vê-la” por aqui mais vezes. Um grande beijinho para si e muito mas mesmo muito obrigada pelo seu comentário 🙂 <3

  2. Nunca fui a Nápoles mas depois deste artigo já coloquei na lista de sítios a visitar. Acho que não poderia ter gostado mais do artigo! Explicaste TUDO. Sem tirar nem por. É por isso que estes posts são os melhores. Fiquei absurdamente sem palavras ao ver que a pizza não custa mais do que 7€ . Como é possível ser tão barata? Acho que deste todas as dicas e conselhos possíveis. Obrigada por esta partilha! Não sabia de todo que tinhas nascido lá. Totalmente uma caixinha de surpresas. Beijinhos minha querida

  3. Claudia Oliveira says: Responder

    Eheh tão bom “ver-te” por aqui Carolina! Pois eu nos textos sobre viagens tento sempre escrever o que gostaria de encontrar escrito num só texto se fosse para um determinado lugar! Fico muito contente pelo texto ter sido esclarecedor E sim, nascida e criada…e com muito orgulho <3
    Um grande beijinho e obrigada pelo comentário 🙂

    P.S.- Sem palavras fico eu sempre que vejo o preço de uma pizza cá. É de loucos!

  4. Ainda não tinha conseguido arranjar tempo para ler este post (shame on me!), sabes que morro de amores por Itália, e confesso que Nápoles não fazia parte da lista. Talvez porque tenho uma ideia demasiado romantizada, mas desconfio que era por desconhecimento. depois disto acrescentei á lista dos locais a visitar em Itália. Obrigada pela clareza.
    beijos grandes
    Nat.

    1. Claudia Oliveira says: Responder

      Fico tão feliz com o teu comentário querida Natália 🙂 Tão bom! Quando precisares de dicas personalizadas já sabes 😉 Um beijinho grande e obrigada <3

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